E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Hora do Cansaço



As coisas que amamos, as pessoas que amamos, são eternos até certo ponto. Duram o infinito variável do limite de nosso poder de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca, dar-lhes moldura de granito. De outra matéria  se tornam, absoluta, numa outra (maior) realidade. Começam a esmaecer quando nos cansamos, e todos nós cansamos, por um ou outro itinerário, de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária, rebaixamos o amor ao estado de inutilidade.
Do sonho eterno fica esse gosto acre na boca, na mente, sei lá, talvez no ar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010









Os médicos estão fazendo a autópsia
Dos desiludidos que se mataram.
Que grande coração eles possuíam.
Viscéras imensas, tripas sentimentais,
E um estômago cheio de poesia.










domingo, 17 de outubro de 2010


É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.
É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.
É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
 

É sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe. 
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

(Carlos Drummond de Andrade)